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terça-feira, 22 de setembro de 2015

Marcos Bernstein: um roteirista precisa ter o olhar aberto para a vida

22/09/2015 18h13
Brasília
Cibele Tenório - Repórter do Portal EBC

Convidado do 48º Festival Brasília do Cinema Brasileiro, o roteirista Marcos Bernstein explicou o ofício de transformar ideias, livros, biografias e música em filme para uma plateia atentaWilson Dias/Agência Brasil

Um dos convidados do 48º Festival Brasília do Cinema Brasileiro, o roteirista Marcos Bernstein é um contador de histórias. Em Brasília, o também diretor ministrou aula de roteiro para uma plateia atenta, a quem falou sobre o ofício de transformar ideias, livros, biografias e até música em filme.

O homem por trás do roteiro de Central do Brasil, Terra estrangeira e Chico Xavier - o filme contou, em entrevista ao Portal EBC, como é o seu processo criativo e lembrou a dificuldade enfrentada para adaptar a poesia contida na música Faroeste Caboclo para o cinema. Bernstein também relatou o início de sua carreira - quando abandonou o curso de direito para se dedicar ao cinema - e falou sobre as possibilidades de formação para cineastas, apontando os caminhos que o levaram a ser roteirista da sétima arte.

Portal EBC: Em suas aulas e palestras sobre roteiro, qual pergunta você mais ouve?
Marcos Bernstein: Sempre tem essa coisa de “como começa”, como é a carreira de roteirista. Acho que umas coisas mais práticas.

Portal EBC: E tem caminho aí?
Bernstein: É muito diferente da época em que eu comecei. Acho que, hoje em dia, há bem mais caminhos do que antigamente. Eu comecei em uma época pós plano Collor. Naquele tempo, a Embrafilmes tinha acabado, quase não se faziam filmes e os espaços eram bem pequenos. Hoje em dia, você tem a TV a cabo. O cinema continua difícil, mas você tem mais caminhos para um roteirista trabalhar o audiovisual. A TV hoje é mais interessante do que era naquele tempo, então é um campo que as pessoas querem explorar.

Portal EBC: Sua relação começa com o cinema ou com o desejo de contar, escrever histórias? Que filmes você viu que foram fundamentais nesse primeiro momento?
Bernstein: Quando eu era pré-adolescente eu via muitos filmes, era apaixonado por cinema e pelo cinema clássico. Assistia muito cinema hollywoodiano clássico na televisão. Como não tinha TV a cabo, eu virava a noite vendo aquela programação noturna, em especial nas férias. Como eu era bom aluno, ninguém reclamava que eu ia dormir tarde e foi assim que fui ficando cinéfilo. Comecei a ler livros de cinema e aquilo foi se tornando uma necessidade para mim. Mas eu não tinha coragem de arriscar. Era época do plano Collor, o cinema não existia, e eu também não conhecia ninguém que vivesse daquilo. Até que chegou uma hora que eu resolvi arriscar. Conheci um amigo que fazia curta-metragem e um outro que namorava a filha de um cineasta e então comecei a ver que existiam seres humanos que viviam daquilo, já não era um mundo tão fora do meu universo. Eu fiz o curso de direito e, no meio da faculdade, resolvi tentar fazer cinema. Comecei a fazer alguns cursos na área, um deles foi com o Walter Sales e o outro foi com o João Sales, irmão dele.


Portal EBC: Era um curso de roteiro?
Bernstein: Não. Era um curso de cinema. O Walter fez um sobre direção cinematográfica, umworkshop, e depois o João fez um curso sobre documentário. E aí, no final, eu pedi um emprego.

Convidado do 48º Festival Brasília do Cinema Brasileiro, 
o roteirista Marcos Bernstein explicou o ofício de transformar ideias, 
livros, biografias e música em filme para uma plateia atenta
Wilson Dias/Agência Brasil

Portal EBC: O seu primeiro trabalho foi então o Terra estrangeira?
Bernstein: Como roteirista foi. Eu tinha feito um roteiro de documentário com João Sales que nunca foi gravado, chamado “nômades”. Era um projeto lindo, parecia um livro, mas nunca saiu. A partir daí, eu comecei a me interessar mais pelo processo de roteiro.

Portal EBC: Como funciona o seu processo de criação? Você é contratado a partir de um argumento que já existe?
Bernstein: No cinema, normalmente, alguém tem a ideia de contar a vida de alguém, de adaptar um livro, ou mesmo uma história. É a partir daí que você começa a desenvolver. No meu caso, eu acho que as pessoas procuram o meu olhar, a maneira como eu contaria aquela história. A partir das necessidades, do olhar das pessoas que estão me contratando, eu trago o meu olhar e a gente vai achando a melhor maneira de contar aquela história.

Portal EBC: Você acha que um bom roteirista nasce pronto e que não existe formação para isso?
Bernstein: Não. Toda formação é boa. Acho também que é preciso ter um olhar aberto para a vida, pra ver as coisas que acontecem em volta de você. Estamos sempre escrevendo sobre o ser humano e você tem de ter alguma vivência, saber como as pessoas falam e como o ser humano é. Não acho que você precisa viver tudo o que há no mundo, mas tem de ter um olhar pra entender um pouco o comportamento humano e, a partir daí, escrever. Não vejo nenhum mal que a formação possa lhe trazer, desde que você não fique enfurnado em casa, só usando referências de coisas já feitas para fazer as suas coisas.

Portal EBC: Quando você começa a escrever você já tem o fim? Ou isso acontece ao longo do processo?
Bernstein: Acho que você tem que ter um fim, mesmo que depois vá mudar. É meio que uma maratona.

Portal EBC: Acontece muito isso, mudar o fim ao longo do processo?
Bernstein: Acontece. O outro lado da rua, que é um filme que eu dirigi, é uma história minha e eu tinha um fim que queria muito: um encontro em que as verdades vinham à tona. Escrevi o filme inteiro para chegar nessa cena e fiz a primeira versão assim. Porém, quando fui ver, era a pior coisa do roteiro. Reescrevi e inventei um novo.

Portal EBC: Você tem no seu currículo filmes com grandes bilheterias. Acha que a experiência na construção de narrativas te ensinou como agradar o público? Não sei se podemos chamar de fórmula, mas tem um processo que você conhece bem por causa da experiência, que você sabe mais ou menos como agradar?
Bernstein: Acho que a experiência vai te dando alguns recursos que, não necessariamente vão atrair o público, mas vão permitir que um público maior se comunique com aquele filme. Então, não é pra atrair, mas para permitir e não espantar. Por exemplo, ao fazer um curta para mais gente, a princípio, você tem que ser mais explicativo do que ao fazer um filme para menos gente.

Portal EBC: Durante sua aula aqui você falou sobre a necessidade de uma certa didática...
Bernstein: É preciso didática em algumas coisas. Você tem que saber no que você está se metendo, não é? Tem alguns filmes que chegam para você que são para fazer público. Há certas coisas que eu sei que tenho que evitar em um filme como esse. Eu não vou fazer uma cena polêmica quando o cara quer muito público. Se eu não quero estar diante dessa situação, então eu não aceito o trabalho. Quando o filme é seu, você tem um pouco mais de liberdade, mas, mesmo assim, tem parceiros. Se a parceria foi feita com a premissa de que você terá liberdade total é uma coisa, mas cada trabalho tem uma proposta diferente.

Portal EBC: Eu queria que você falasse sobre o processo de criação do Faroeste Caboclo. Porque é uma coisa muito especifica, você tem uma canção, e as pessoas tem uma adoração por essa música. Como foi fazer o roteiro do Faroeste?
Bernstein: Eu já tinha pesquisado muito da vida do Renato Russo [vocalista da banda Legião Urbana] para fazer o roteiro do Somos tão Jovens, antes de Faroeste. E eu conhecia muito da cena brasiliense da época do Renato, que era a mesma do Faroeste. Então, teve um lado que eu meio que brinquei. O Renato não tem nada a ver com a história do Faroeste, não é biográfico, mas é como se fosse uma história que se passou na vida real dele. Como se um leitor de jornal tivesse testemunhado aquilo. Então, eu tinha uma base histórica bacana, mas tinha essa coisa complexa que era pegar aquela música que todo mundo achava que parecia um argumento de cinema e que, na verdade, não parecia. Não havia uma ordem muito clara. Tinha muita confusão. É aquela coisa de atirar para várias direções, o que a música permite, a poesia né? Tem uma coisa mais poética no fluxo da música, você não está ali traduzindo e interpretando tudo. Eu tinha que buscar aquilo e dar uma coerência narrativa. Foi um trabalhão porque, realmente, tinha muita coisa que não fazia sentido como uma narrativa. Então, era preciso criar. Mas, por outro lado, era uma música que eu também adorava. Curiosamente, o primeiro filme que eu tentei fazer como diretor foi Eduardo e Mônica [música da Legião Urbana] e eu cheguei a tentar falar com o Renato, a gente chegou a discutir; foi no ano que ele morreu. Depois eu acabei fazendo esses dois filmes. Mas o Eduardo e Mônica já é uma música que tem muito mais argumento do que o Faroeste.


Portal EBC: E a ideia morreu?
Bernstein: Não. Eles estão fazendo, o René (Sampaio), que fez o Faroeste, está fazendo o Eduardo e Mônica.

Portal EBC: Qual a reação das pessoas quando descobriram que você era o roteirista do Faroeste?
Bernstein: O filme fez muito sucesso. Então, eu acho que a maioria das pessoas gostou. Mas eu recebi umas duas ou três mensagens no Facebook de gente muito revoltada, realmente querendo me matar, porque acharam que eu tinha destruído a música da adolescência deles. Reclamavam que eu não tinha feito coisas que estavam na música, e que eu tinha tomado liberdades que eram afrontas à música. Foi bem estranho e desagradável, nunca tinha acontecido comigo.

Portal EBC: Depois de um tempo trabalhando como roteirista, você foi para direção. Isso foi um processo natural de querer contar as histórias a partir do seu olhar?
Bernstein: Acho que existem dois tipos básicos de roteiristas. Um é o roteirista que se aproxima do roteiro pela escrita, pelo encanto, pela literatura ou por ser escritor. E tem o roteirista que se aproxima pelo encantamento com o audiovisual e o cinema. Esse tem um encanto mais genérico pelo cinema. E eu sou assim. Eu sempre gostei de cinema. Eu me aproximei como cineasta e acabei me tornando um roteirista. Quando eu fui para direção, não foi nenhuma frustração porque não contavam direito meus roteiros, até porque eu tinha muitos filmes bem feitos. Foi um desejo de dirigir e de trabalhar com ator, de decupar, de fotografar e de tudo isso. Eu queria participar do processo inteiro.

Portal EBC: E qual o próximo projeto que você está envolvido?
Bernstein: Eu vou dirigir um filme, no começo do ano que vem, que se chama Todo amor. É um roteiro meu, escrito com meu parceiro Marc Bechart. É uma história de amor com bastante humor e um pouco de drama. Vamos filmar ano que vem e deve sair em 2017.

Edição: Ana Elisa Santana

Fonte: Agência Brasil