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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Walter Carvalho fala sobre novas tecnologias e diz que o cinema nunca vai acabar

21/09/2015 16h54
Brasília
Cibele Tenório - Repórter do Portal EBC

Se você já se sentou em uma cadeira de cinema para assistir aos filmes Cazuza – O Tempo Não Pára, Carandiru e Amarelo Manga ou se encantou com séries que fogem da estética padrão da tevê aberta como Amores Roubados e O Canto da Sereia, então você já foi apresentado ao trabalho de Walter Carvalho. Nascido na Paraíba, Carvalho é o principal diretor de fotografia do cinema brasileiro há algumas décadas. Desde 2001, ano em que codirigiu Janela da Alma, ele diz ter "perdido o medo", passando a assumir a direção de seus próprios filmes, como o documentário Raul - O Início, o Fim e o Meio, que levou mais de 170 mil pessoas ao cinema, um das maiores bilheterias brasileiras do gênero.
O cineasta Walter Carvalho durante a abertura do 48 Festival de Cinema (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
O cineasta Walter Carvalho durante a abertura do 48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

É dele a câmera vertiginosa que segue os convidados da festa no remake da novela O Rebu, exibida pela Rede Globo em 2014. Também tem a assinatura dele uma das mais belas sequências de Central do Brasil, filme fotografado por Walter: Dora (Fernanda Montenegro) procura em desespero o garoto Josué (Vinícius de Oliveira) em uma romaria. Para dar o tom místico da cena, Walter pediu à produção que providenciasse uma vela para cada fiel/figurante e essa foi a única luz usada na cena.

Com um currículo extenso que inclui ainda filmes emblemáticos do cinema brasileiro como Terra estrangeira, Lavoura Arcaica, Madame Satã, Abril despedaçado, O céu de Suely e Budapeste, Walter Carvalho continua produzindo. Na abertura da 48ª edição do Festival Brasília do Cinema Brasileiro, realizada no último dia 15, o cineasta apresentou Um Filme de Cinema, documentário que traz entrevistas com diretores como Ruy Guerra, José Padilha, Hector Babenco, Gus Van Sant. Segundo Walter, é uma tentativa de "entender o que é fazer cinema". O Portal EBC conversou com o diretor após uma oficina de direção de fotografia conduzida por ele dentro da programação do Festival de Brasília.

Portal EBC: Você já falou que no primeiro encontro com um diretor você fica tentando capturar, na conversa, as palavras ou as imagens que ele fala, porque isso não vai se repetir. Como é construída a parceria entre o diretor de fotografia e o diretor do filme?
Walter Carvalho: Quando a gente conversa com o diretor tem sempre aquelas coisas que ele vai falando, que não exatamente sobre imagem. Eu não trouxe aqui o roteiro do Veneno da Madrugada, por exemplo, mas nele eu fui anotando palavras que tinham a ver, e que me remetiam à noite. Coisas que foram sendo ditas por ele ou no processo de criação de todos nós e aquelas palavras eu vou anotando, porque elas começam a me remeter para outras coisas que eu não tinha percebido e que não necessariamente são palavras que estejam dentro do roteiro. Numa segunda leitura eu já leio tecnicamente aquilo. Tem uma sequência que diz assim “Entardecer/ varanda da casa de Ana”, eu já sei que é uma varanda e que é o entardecer. Então eu já estou estabelecendo a cor, a tarde é diferente do meio-dia, em termos de temperatura e cor, a colorimetria. Então, se eu vou ver as locações com a produção e com os outros departamentos, eu vou tentar achar junto com eles a melhor varanda que no entardecer o sol esteja por ali. Se o sol não está por ali, mas a varanda é boa, vai estar numa varanda onde não tem o sol batendo, eu vou ter que fabricar esse sol com os refletores. Então você começa a descobrir a fotografia mecânica daquele roteiro. E isso você vai aos poucos descobrindo. E a fotografia que não aparece, que não está explícita ali, está nas entrelinhas dos personagens, do roteiro em si, das indicações do roteiro. É um processo que quando eu chego no final, quando eu acabo de filmar o filme, eu estou pronto pra fazê-lo, mas aí eu já filmei.

Portal EBC: Outra coisa que você falou aqui foi sobre o medo de assumir a direção. Eu não sei quanto tempo levou e quanto tempo você trabalhou como diretor de fotografia. Não sei se foi o Janela da Alma o seu primeiro filme...
Carvalho: Não. Eu tinha feito antes até um filme meu sozinho, um curta e tal. Longa, o Cazuza veio antes do Janela, eu acho. Mas quando eu falo medo, não é o medo de assumir; é o medo de fazer. Não é assumir, porque antes de assumir sozinho a direção ou dividir um longa, eu de certa forma já me desafiava dentro do filme. Me desafiava a contribuir, não como fotógrafo, mas em um nível da direção, e na medida em que eu fui andando por esse caminho e fui sendo receptivo com os colegas. Eu comecei a entender como isso é difícil. Então eu comecei a adquirir, em vez de experiência, o medo. O medo de dirigir e o medo foi sendo de uma forma tão forte comigo que eu acabei sendo desafiado por ele e não pela experiência.

Portal EBC: A sua entrada no cinema foi pela porta do documentário. Eu não sei se você tem um balanço, porém mais da metade dos seus filmes são...
Carvalho: Ficção. Hoje em dia, sim. Eu não sei, teve uma época que era meio empate.

Portal EBC: Você parece ter uma preferência pelo documentário. Tem a ver com o ofício do fotógrafo, de ter um olhar para a realidade?
Carvalho: A preferência não é pelo documentário, minha preferência é pelo próximo que eu vou fazer. Eu não tenho preferência de gênero. A minha preferência é o próximo filme. Não consigo achar que vai ser melhor eu fazer um documentário ou ficção. No momento que eu estou fazendo aquele filme e para mim aquele é o melhor filme que eu estou tendo a chance de me realizar enquanto fotógrafo e diretor.

Portal EBC: E sobre as novas plataformas? Hoje em dia todo mundo tem um celular, pode produzir vídeos. O que você acha disso? Isso muda a relação das pessoas com o audiovisual, com o cinema?
Carvalho: Não, eu acho que não vai matar o cinema. O cinema nunca vai acabar. O mistério da imagem numa sala escura, com uma história numa tela grande que faz com que você se apaixone, se identifique, isso nunca vai acabar. Eu acho que muda a estrutura do cinema, a maneira de distribuição, e a maneira de circulação dos filmes. Cada vez mais o cinema feito nas novas tecnologias aproxima o cinema das instalações, aproxima o cinema das artes plásticas, né? Mas é uma mudança muito radical na forma de distribuir, na forma de chegar ao público como produto. O cinema, os diretores, os produtores falam muito mais de produto do que do meu filme. O cara não fala assim “meu produto” ele fala “é meu projeto”. E depois tem toda uma mecânica burocrática em volta de tudo isso que dificulta o que é cinema, o que é fazer um filme.

Portal EBC: Você fala da burocracia dos editais de audiovisual?
Carvalho: É. Da burocracia de quem produz o cinema no Brasil. São de leigos em relação ao próprio processo do cinema. O burocrata que está por trás do balcão examinando o roteiro não sabe como é que faz um roteiro, porque o roteiro não é pra ser lido, o roteiro é pra ser filmado. Então quem lê o roteiro sem saber como é que filma e nada é a mesma coisa. Entende? A burocracia criada em torno do cinema hoje é um empecilho pra quem quer produzir filme. Tem muita gente que desiste de enfrentar esse processo. Não se ganha o prêmio de uma determinada instituição: “Ah ganhei um concurso e tenho R$ 300 mil para fazer meu filme”. O fato de você ganhar não significa que você vai receber no próximo ano. Outro dia um amigo estava me falando que vai receber um dinheiro agora de um projeto que ele ganhou em outubro do ano passado. Então tudo isso é um desânimo. Por isso que eu queria fazer um filme muito pessoal, com dois atores somente, mas se alguém não chegar para mim e falar “me dá que eu vou correr atrás e vou ser responsável por isso”, eu não vou fazer.

Portal EBC: Você falou, antes da exibição de Um filme de cinema no Festival de Brasília, que você teria feito esse filme para descobrir mais sobre o que é fazer cinema e sobre você também.
Carvalho: Continuo tentando.

Portal EBC: Eu queria que você falasse um pouco sobre as suas descobertas durante o filme.
Carvalho: Pois é, eu descobri que tenho que continuar tentando. Porque a cada descoberta ela ramifica. Quando eu faço um filme que eu acabo, termino o filme, eu sempre levo comigo mais do que eu deixo no filme. Eu tento inverter essa equação, mas não consigo. Sempre levo mais do filme do que eu deixo de mim. Então, se eu sinto dessa forma significa que o processo de fazer ele é enriquecido a cada filme. Então, eu estou consciente de que cada vez mais eu preciso fazer mais, para compreender mais. Não sei se eu, fazendo menos, vou compreender mais. Mas pode ser que eu esteja fazendo mais e possa compreender menos. Mas, numa equação ou na outra, eu preciso fazer. Porque é sempre uma novidade, é sempre uma experiência nova. Se nada eu levar do processo daquele trabalho, se nada valeu a pena, levo comigo a experiência humana daquele momento.

Edição: Ana Elisa Santana


Fonte: Agência Brasil