05/10/2013 - 19h26
- Saúde
Vinícius Lisboa
Repórter da Agência da Brasil
Repórter da Agência da Brasil
Rio de Janeiro - Ao aderir à primeira etapa do programa Mais
Médicos, o município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, que tem
cerca de 855 mil habitantes, ofereceu 32 vagas. Após as inscrições, 11
brasileiros e dois estrangeiros foram selecionados para atuar na cidade.
Quando chegou o dia da apresentação, seis brasileiros compareceram, e,
desses, quatro completaram na última quarta-feira (2) um mês de atuação,
já que dois desistiram do programa.
Um deles é Wendel José, de 26 anos, formado há nove meses e
entusiasmado com o contato com os pacientes do bairro de Parada
Angélica, onde preencheu uma vaga na Unidade do Programa de Saúde da
Família. Ele já morava em Duque de Caxias, mas nasceu em Guaíra, no
interior de São Paulo.
"O pessoal tem sido bem receptivo. Aqui tinha uma carência muito
grande mesmo de médico. A gente vê pessoas com problemas crônicos, como
diabetes e hipertensão, que estavam sem acompanhamento, algumas já até
com complicações dessas doenças", diz o médico, que focou a formação na
emergência, mas migrou para a saúde da família com o programa. "A gente
vê tanto paciente que chega mal na emergência, com complicações que
poderiam ter sido evitadas. Com a prevenção, a pessoa hipertensa não
chega a ter pico hipertensivo ou AVC (acidente cardiovascular).Tudo
começa na atenção básica",disse.
No estado do Rio, em que todos os médicos da primeira etapa foram
alocados na região metropolitana, a Baixada Fluminense aguardava receber
37 profissionais formados no Brasil, enquanto Itaboraí e São Gonçalo,
no Leste Fluminense, sete, e a capital, 16. Em Belford Roxo, no entanto,
nenhum dos sete previstos se apresentou. O mesmo ocorreu em São João de
Meriti, onde um médico deveria ter comparecido. Na capital, 11 médicos
desistiram, e, em São Gonçalo, segunda cidade mais populosa do estado,
dos três médicos aguardados, dois se apresentaram e um abandonou o
programa.
"O nosso grande problema, que é do país inteiro, é fixar médico. A
gente não consegue ter um grande salário, e os médicos não têm a
disponibilidade de carga horária necessária para atuar na atenção básica
e ter vínculo com a população. Esse programa veio nos ajudar a resolver
esse problema de fixação do médico", defendeu Gláucia Almeida,
coordenadora da Atenção Básica de Mesquita.
O município ofereceu oito vagas ao se inscrever para o programa.
Recebeu seis médicos brasileiros e um estrangeiro, mas apenas quatro dos
formados no Brasil se apresentaram. Deles, dois desistiram alegando não
ter disponibilidade para a carga horária de 40 horas. Mesquita, segundo
Gláucia, tem atualmente duas equipes de saúde da família com falta de
médicos.
A unidade de saúde ocupa uma casa de três quartos com problemas de
conservação pontuais, como portas descascadas e uma parede com
infiltração, apesar de boa parte do prédio ter pintura nova, e os
pacientes aguardarem em uma sala de espera arejada adaptada na garagem
da residência. No consultório de Eliazar, há ar condicionado e mobília
simples: um armário estreito, uma cama, duas cadeiras e uma mesa de
ferro pintada de branco: "O posto garante o mínimo para o atendimento. O
resto é da garra da equipe", afirma o médico.
Apesar disso, ele narra outra dificuldade: a falta de um carro para
levar as equipes até as pessoas que precisam de atendimento domiciliar, o
que faz com que ele visite apenas casas próximas a ponto de ir a pé.
Quanto a locomoção, a periculosidade de algumas áreas cobertas pela
clínica é outra preocupação: "Têm lugares em que não costumamos ir
porque são zonas de risco. Não nos negamos a ir, mas depende do caso”,
observou.
Eliazar já levou à Coordenação de Atenção Básica do município suas
demandas, um computador com internet e um guarda noturno no posto. "A
internet já foi instalada na segunda(30) e ficaram de mandar o
computador. Há necessidade do computador para várias coisas, e uma delas
é o telecurso do programa e os relatórios que tenho preenchido de casa.
Isso deveria ser feito no horário de trabalho".
O médico lotado em Mesquita conta que, no primeiro mês de trabalho,
seus principais pacientes foram diabéticos, hipertensos e gestantes, já
que é obstetra, mas outros casos surpreenderam: "A partir da visita de
agentes comunitários que perceberam algo de estranho, pontuamos ao
conselho tutelar uma menor que estava sendo abusada. O programa também
tem essa parte da atenção social, que é importante".
Já conhecido de algumas famílias do bairro, Wendel também tem casos
para contar: "Tem gente que vem só pra conversar. Teve uma senhora que
veio na consulta só para perguntar se podia comer amendoim, porque
estava com colesterol e triglicerídeos altos e sentiu vontade. Isso
também é saúde da família. O objetivo é criar vínculo com a comunidade.
Tem gente que vem aqui toda semana e até traz fruta que dá no quintal
pra gente", contou.
O jovem médico afirma que o programa é bom, mas questiona o modo
como foi formulado: "Não concordo, por exemplo, que médicos de outros
países entrem no Brasil sem a revalidação do diploma, nem com cubanos
ganharem menos que os outros. O programa é bom, mas não é só levar o
médico. Tem que estruturar a unidade e manter o médico lá. Os médicos
não são contra o programa, são contra a formulação",observou.
Eliazar, por outro lado, elogia a iniciativa e garante: "Estou aqui
muito feliz. As pessoas têm muitas dúvidas, mas pelo menos da minha
parte, o programa vai dar certo",concluiu.
Edição: Valéria Aguiar
Fonte: Agência Brasil
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