Presidente está irredutível e alega que crise internacional
recomenda austeridade; sindicato prevê que até 500 mil cruzarão os
braços
28 de junho de 2012 | 22h 30
Marta Salomon e Lisandra Paraguassu - O Estado de S. Paulo
BRASÍLIA - A insatisfação dos servidores públicos com a
intransigência da presidente Dilma Rousseff em conceder reajustes
salariais, diante do cenário de crise econômica internacional, aumentou o
risco de o governo enfrentar uma greve geral do funcionalismo. O último
movimento grevista importante no Brasil ocorreu ainda no primeiro
mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em reunião encerrada
nesta quinta-feira, 28, à noite, servidores das dez agências
reguladoras declararam-se em estado de greve a partir de segunda-feira. A
maioria das categorias já paradas ou com indicativo de greve quer
correção dos salários em 2013.
Personagem das mobilizações, o secretário-geral da Confederação dos
Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef), Josemilton Costa,
avalia que cerca de 300 mil servidores já cruzaram os braços. A greve,
segundo ele, pode alcançar 500 mil servidores. "A construção é a greve
geral", adiantou.
A Condsef é filiada à Central Única dos Trabalhadores (CUT) - braço sindical do PT, que apoia a greve geral do funcionalismo.
"O governo não consegue apresentar uma contraproposta, só faz
protelar a discussão", criticou o diretor da CUT Pedro Arnengol. As
categorias têm reivindicações diferentes, mas a maioria quer reajuste de
22% dos salários.
Os servidores têm ouvido que o governo terá uma resposta até 31 de
agosto, prazo final para o envio ao Congresso da proposta de lei
orçamentária de 2013.
Nesta quinta, a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais)
insistiu que não haverá aumentos de salário para o funcionalismo neste
ano. "Se as greves forem mantidas, vão gerar um impasse sem eficiência e
sem eficácia. Não há possibilidade, principalmente em um momento de
crise, de executar novas despesas não previstas", afirmou a ministra.
A colega do Planejamento, Miriam Belchior, encarregada de negociar
com os servidores, optou por não se manifestar. Sua assessoria informou
que o processo de negociação está em curso e não há data para a
apresentação de uma contraproposta.
O ministério informou ainda não ter um mapa da dimensão do movimento
grevista. Nesta quinta, houve uma nova manifestação em frente ao prédio
do Planejamento. O ato reuniu representantes de 22 categorias de
servidores públicos.
"O governo mais uma vez protelou", destacou o presidente do Sindicato
Nacional dos Servidores das Agências Nacionais de Regulação
(Sinagências), João Maria Medeiros de Oliveira, após a plenária
concluída quinta à noite. Nela, a categoria que reúne 7 mil
funcionários, resolveu parar a partir do dia 17, por tempo
indeterminado, se a negociação não avançar até lá. Além das dez agências
reguladoras, que tratam de vigilância sanitária, petróleo, aviação
civil e energia elétrica, por exemplo, também aderiu ao movimento do
Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), que cuida das
autorizações de pesquisa e lavra no País.
Professores. A greve mais longa em curso é a dos
professores universitários, parados há 43 dias. Segundo balanço dos
sindicatos, das 59 universidades, 56 estão paradas. Dos 38 Institutos
Federais de Educação, 36 também aderiram à greve. Os professores pedem,
entre outras coisas, aumento do piso salarial para R$ 2.329,35 para 20
horas semanais de trabalho. Hoje, o valor é de R$ 1.597,92.
Nesse período, houve apenas uma reunião com o governo. Uma segunda
reunião de negociação, marcada para 18 de junho, foi desmarcada pelo
Ministério do Planejamento.
Nesse mesmo dia, os auditores fiscais da Receita Federal - que
integram as categorias com salários mais altos no serviço público
iniciaram uma operação-padrão por reposição salarial de 30,18%. A partir
de 1º de agosto, os auditores poderão parar.
A Polícia Federal, outra integrante do grupo de servidores com
salários mais altos, também discute cruzar os braços. "Decidimos que não
vamos mais participar de reuniões para marcar mais uma reunião. Já
apresentamos o que queremos, o Planejamento reconhece os nossos pleitos,
mas não apresenta uma forma para resolver", disse Jonas Leal,
presidente do Sindicato dos Policiais Federais (Sindipol).
Num movimento inédito, funcionários do Ministério de Relações
Exteriores também entraram em greve há dez dias. O sindicato contabiliza
a adesão em 129 embaixadas, consulados ou postos de representação no
exterior. Nesta quinta, representantes da categoria foram recebidos no
Ministério do Planejamento, mas não há sinal de volta ao trabalho.
FONTE: ESTADÃO.COM.BR